sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Código Penal da Vida Futura

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Código Penal da Vida Futura 

O Espiritismo não se apoia, pois, numa autoridade de natureza particular para formular um código fantasioso. Suas leis, no que toca ao futuro da alma são deduzidas de observações positivas sobre os fatos e podem ser resumidas da maneira seguinte: 

1º) A alma ou Espírito sofre na vida espiritual as conseqüências de todas as imperfeições de que não se libertou durante a vida corpórea. Seu estado feliz ou infeliz é inerente ao grau de sua depuração ou das suas imperfeições. 

2º) A felicidade perfeita é inerente à perfeição, quer dizer à purificação completa do Espírito. Toda imperfeição é ao mesmo tempo uma causa de sofrimento e de privação de ventura, da mesma maneira que toda qualidade adquirida é uma causa de ventura e de atenuação dos sofrimentos. 

3º) Não há uma só imperfeição da alma que não acarrete conseqüências desagradáveis, inevitáveis, e não há uma só qualidade boa que não seja fonte de ventura. A soma das penas é assim proporcional à soma das imperfeições, como a dos gozos é proporcionada à soma das boas qualidades. 
A alma que tiver, por exemplo, dez imperfeições, sofrerá mais do que aquela que tiver apenas três ou quatro. Quando dessas dez imperfeições só lhe restarem um quarto ou a metade, ela sofrerá menos, e quando nada mais restar, ela nada sofrerá, sendo perfeitamente feliz. É como acontece na Terra: aquele que sofre de muitas doenças padece mais do que o que sofre apenas de uma ou não tem nenhuma. Pela mesma razão, a alma que possui dez qualidades boas goza de mais felicidade que a outra que possui menos. 

4º) Em virtude da lei do progresso, tendo cada alma a possibilidade de conquistar o bem que lhe falta e libertar-se do que possui de mal, segundo os seus esforços e a sua vontade, resulta que o futuro está aberto para qualquer criatura. Deus não repudia nenhum de seus filhos. EIe os recebe em seu seio à medida que eles atingem a perfeição, ficando assim a cada um o mérito das suas obras. 

5º) O sofrimento sendo inerente à imperfeição, como a felicidade é inerente à perfeição, a alma leva em si mesma o seu próprio castigo onde quer que se encontre. Não há pois necessidade de um lugar circunscrito para ela. O inferno está assim por toda a parte, onde quer que existam almas sofredoras, como o céu está por toda a parte, onde quer que as almas sejam felizes. 

6º) O bem e o mal que praticamos são resultados das boas e das más qualidades que possuímos. Não fazer o bem que se pode fazer é uma prova de imperfeição. Se toda a imperfeição é fonte de sofrimento, o Espírito deve sofrer não só por todo o mal que tenha feito, mas também por todo o bem que podia fazer e que não fez durante a sua vida terrena. 

7º) O Espírito sofre segundo o que fez sofrer, de maneira que sua atenção estando incessantemente voltada para as conseqüências desse mal, ele compreende melhor os inconvenientes do seu procedimento e é levado a se corrigir. 

8º) A justiça de Deus sendo infinita, todo o mal e todo o bem são rigorosamente Ievados em conta. Se não há uma única ação má, um só mau pensamento que não tenha conseqüências fatais, também não há uma única ação boa, um só bom movimento da alma, numa palavra, o mais ligeiro mérito que fique perdido. E isso, mesmo entre os mais perversos, porque representam um começo de progresso. 

9º) Toda falta que se comete, todo mal praticado é uma dívida contraída e que tem que ser paga. Se não for nesta existência, será na próxima ou nas seguintes, porque todas as existências são solidárias entre si. Aquilo que se paga na existência presente não será cobrado na seguinte. 

10º) O Espírito sofre de acordo com as suas imperfeições, seja no mundo espiritual, seja no corporal. Todas as misérias, todas as dificuldades que ele enfrenta na vida corpórea são as conseqüências de suas próprias imperfeições, as expiações de faltas cometidas nesta mesma existência ou nas existências anteriores. 
Pela natureza dos sofrimentos e das dificuldades que ele enfrenta na vida corpórea, podemos julgar a natureza das faltas cometidas numa existência anterior e quais as imperfeições que as causaram. 

11º) A expiação varia segundo a natureza e a gravidade da falta. A mesma falta pode assim provocar expiações diferentes, segundo as circunstâncias atenuantes ou agravantes nas quais ela foi cometida. 

12º) Não há, no tocante à natureza e a duração do castigo, nenhuma regra absoluta e uniforme. A única lei geral é a de que toda falta recebe uma punição e toda boa ação tem a sua recompensa segundo o seu valor. 

13º) A duração do castigo está subordinada ao melhoramento do Espírito culpado. Nenhuma condenação é pronunciada contra ele por tempo determinado. O que Deus exige para termo dos sofrimentos é uma melhora verdadeira, efetiva, com um retorno sincero ao bem. 

O Espírito é assim e sempre o árbitro do seu próprio destino. Pode prolongar os seus sofrimentos pelo seu endurecimento no mal e abrandá-los e até mesmo abreviá-los pelos seus esforços em praticar o bem. 

Uma condenação por tempo determinado, qualquer que fosse esse tempo, teria o duplo inconveniente de fazer o Espírito sofrer inutilmente depois de melhorado, ou de cessar antes que ele se libertasse do mal. Deus, que é justo, pune o mal enquanto ele existe, e deixa de punir quando o mal deixou de existir. Ou, se quisermos, sendo o mal moral a própria causa do sofrimento, este dura somente enquanto aquele subsiste e a sua intensidade diminui à medida que o mal vai desaparecendo. 

14º) A duração do castigo estando subordinada ao melhoramento do Espírito, disso resulta que o culpado que não se melhorasse continuaria sofrendo sempre, e que para ele a pena seria eterna. 

15º) Uma condição que é inerente à inferioridade dos Espíritos é a de não ver o termo de sua situação e acreditar que sofrem para sempre. Isso faz que para eles o castigo pareça eterno. 

16º) O arrependimento é o primeiro passo para o melhoramento. Mas ele apenas não basta, sendo necessárias ainda a expiação e a reparação. Arrependimento, expiação e reparação são as três condições necessárias para apagar os traços de uma falta e as suas conseqüências. 

O arrependimento suaviza as dores da expiação, porque desperta esperança e prepara a reabilitação, mas somente a reparação pode anular o efeito ao destruir a causa. O perdão seria uma graça e não uma anulação da falta. 

17º) O arrependimento pode ocorrer em qualquer lugar e tempo. Se ele for tardio, o culpado sofre por mais tempo. 

A expiação consiste nos sofrimentos físicos e morais que são a conseqüência da falta cometida, seja desde a vida presente ou seja após a morte, na vida espiritual, ou ainda numa nova existência corpórea, até que os traços da falta tenham desaparecido. 
A reparação consiste em praticar o bem para aquele mesmo, a quem se fez o mal. Aquele que não repara os seus erros nesta vida, por fraqueza ou má vontade, tornará a encontrar-se, numa outra existência, com as mesmas pessoas que ofendeu, e em condições escolhidas por ele mesmo para poder provar-lhes o seu devotamento, fazendo-lhes tanto bem quanto o mal que havia feito. 

Nem todas as faltas acarretam um prejuízo direto e efetivo. Nesses casos, a reparação se realiza fazendo-se o que se deixou de fazer, cumprindo-se os deveres que foram negligenciados ou desprezados, as missões em que se tenha falido, praticando-se o bem reparador do mal que se fez. Isso quer dizer, sendo humilde quando se foi orgulhoso, bondoso quando se foi duro, caridoso quando se foi egoísta, benevolente quando se foi maldoso, trabalhador quando se foi preguiçoso, útil quando se foi inútil, temperante quando se foi dissoluto, bom exemplo quando se foi mau e assim por diante. É dessa maneira que o Espírito progride, tornando proveitoso o seu passado.

18º) Os Espíritos imperfeitos são afastados dos mundos felizes porque perturbariam a sua harmonia. Permanecem nos mundos inferiores onde expiam as suas faltas pelas tribulações da vida e se libertam das suas imperfeições, até merecerem encarnar-se em mundos moral e fisicamente mais adiantados. 

Se podemos conceber um lugar de castigo determinado é precisamente nos mundos de expiação, pois é ao redor desses mundos que pululam os Espíritos imperfeitos desencarnados, esperando uma nova existência que, permitindo-lhes a reparação do mal que fizeram, os ajudará a progredir. 

19º) Como o Espírito conserva sempre o seu livre-arbítrio, melhora às vezes de maneira lenta e sua obstinação no mal é bastante tenaz. Pode persistir nessa situação durante anos e séculos, mas chega sempre o momento em que a sua teimosia em desafiar a justiça de Deus se abate diante do sofrimento, e então, malgrado a sua fanfarronice, ele reconhece o poder superior que o domina. Desde o momento em que manifesta as primeiras luzes do arrependimento, Deus o faz entrever a esperança. 
Nenhum Espírito está na condição de nunca se melhorar. Se assim fosse ele estaria fatalmente destinado a uma eterna situação de inferioridade e escaparia à lei da evolução que rege providencialmente todas as criaturas. 

20º) Sejam quais forem a inferioridade e a perversidade dos Espíritos, Deus jamais os abandona. Todos têm o seu anjo da guarda que vela por eles, vigia as expansões da sua alma e se esforça para despertar-lhes bons pensamentos, desejos de progredir e de reparar numa nova existência o mal que tenham feito. Não obstante, o guia ou protetor age na maioria das vezes de maneira oculta, sem exercer nenhuma pressão. O Espírito deve melhorar-se pela força de sua própria vontade e não por força de qualquer constrangimento. Deve agir bem ou mal em virtude de seu livre-arbítrio, sem ser fatalmente empurrado num sentido ou noutro. Se fizer o mal, sofrerá as suas conseqüências enquanto permanecer no mau caminho. Desde que dê um passo em direção ao bem sentirá imediatamente os seus resultados. 

Observação: Seria errôneo acreditar que, em virtude da lei do progresso, a certeza de chegar cedo ou tarde à perfeição e à felicidade pode ser um encorajamento a permanecer no mal, esperando arrepender-se mais tarde. Primeiro, o Espírito inferior não vê a possibilidade de um fim para a sua situação; segundo, sendo ele o artífice da sua própria desgraça, acaba por compreender que dele depende fazê-la cessar e que quanto mais persistir no mal mais longa será a sua infelicidade, pois o seu sofrimento durará sempre se ele próprio não lhe puser um termo. Esse seria, de sua parte, um cálculo errado, com o qual se enganaria a si mesmo. Se, pelo contrário, segundo o dogma das penas irremissíveis, toda esperança lhe fosse negada, ele não teria nenhum interesse em retornar ao bem, pois isso não lhe daria nenhum proveito. 

Perante esta lei cai igualmente a objeção referente à presciência. Deus, ao criar uma alma sabe realmente se em virtude do seu livre-arbítrio ela tomará o bom ou o mau caminho; sabe que ela será punida se praticar o mal; mas sabe também que esse castigo temporário é um meio de a levar a compreender o seu erro e de a fazer entrar no bom caminho, ao qual cedo ou tarde chegará. Segundo a doutrina das penas eternas, Deus sabe que a alma falirá, e assim ela já está previamente condenada às torturas sem fim.
 
21º) Cada um só é responsável pelas suas próprias faltas. Ninguém sofre penalidades pelas faltas alheias, a menos que para isso tenha dado algum motivo, seja provocando-as pelo seu exemplo, seja deixando de impedi-Ias quando podia fazê-lo. 

É assim, por exemplo, que o suicida é sempre punido, mas aquele que, por sua dureza de coração, leva um indivíduo ao desespero e daí ao suicídio, sofre uma pena ainda maior. 
22º) Embora a diversidade de punições seja infinita, existem as que são inerentes à inferioridade dos Espíritos e cujas conseqüências, salvo algumas nuanças, são mais ou menos idênticas. 

A punição mais comum, entre os que são sobretudo apegados à vida material e negligenciam o progresso espiritual, consiste na lentidão com que se processa a separação da alma e do corpo, e portanto nas angústias que acompanham a morte e o despertar na outra vida, na duração das perturbações que podem então durar desde meses até anos. Entre os que, pelo contrário, tendo uma consciência pura, identificam-se durante a vida corpórea com a vida espiritual e libertam-se das coisas materiais, a separação é rápida, sem dificuldades, e o despertar aprazível, sendo a perturbação quase inexistente. 

23º) Um fenômeno muito freqüente entre os Espíritos de um certo grau de inferioridade moral consiste em se acreditarem ainda vivos após a morte, e essa ilusão pode se prolongar durante anos, através dos quais eles experimentam todas as necessidades, todos os tormentos e todas as perplexidades da vida.

24º) Para o criminoso, a visão incessante de suas vítimas e das circunstâncias do crime é um suplício cruel. 

25º) Alguns Espíritos são mergulhados em trevas espessas. Outros são postos num isolamento absoluto, no espaço, atormentados pelo fato de não saberem qual a sua condição e o seu destino. Os maiores culpa dos sofrem torturas que são tanto mais pungentes quanto ignoram o seu fim. Muitos ficam privados de verem os seus seres queridos. Todos, em geral, passam por sofrimentos cuja intensidade é relativa aos males que praticaram, às dores e necessidades que fizeram os outros sofrer, até que o arrependimento e o desejo de reparação, venham trazer-lhes um abrandamento ao fazê-los entrever a possibilidade de dar, por si mesmos, um fim a essa situação. 

26º) É um suplício para o orgulhoso ver acima dele, gloriosos e radiantes de alegria, os que ele havia desprezado na Terra, ao mesmo tempo que ele é relegado aos últimos lugares. Para o hipócrita, ver-se trespassado pela luz que revela os seus mais secretos pensamentos, que todos podem ler, não havendo para ele nenhum meio de se esconder ou se disfarçar. Para o sensual é um suplício passar por todas as tentações, todos os desejos, sem poder satisfazê-los. Para o avarento, ver o seu ouro desperdiçado e não poder retê-lo. Para o egoísta, ser abandonado por todos e sofrer tudo aquilo que os outros sofreram dele: terá sede e ninguém lhe dará de beber; terá fome e ninguém lhe dará de comer; nem uma só mão amiga virá apertar a sua, nenhuma voz compassiva virá consolá-lo, pois ele só pensou em si durante a vida e ninguém agora pensa nele nem o lamenta após a sua morte. 

27º) O meio de evitar ou atenuar as conseqüências de suas faltas na vida futura é desfazer-se o mais possível dos seus defeitos na vida presente, reparar aqui mesmo o mal para não ter de repará-lo mais tarde e de maneira mais terrível. Quanto mais demorarmos a deixar os nossos defeitos, mais as suas conseqüências se tornarão penosas e mais rigorosas será a reparação que tivermos de fazer. 

28º) A situação do Espírito, desde a sua entrada na vida espiritual, é aquela que ele mesmo se preparou durante a sua vida corporal. Mais tarde, outra encarnação lhe é concedida para expiar e reparar a anterior, passando por novas provas. Mas ele a aproveitará em maior ou menor grau, segundo o seu livre-arbítrio. Se não a aproveitar, terá um trabalho a recomeçar, e cada vez em condições mais penosas. Dessa maneira, aquele que muito sofre na Terra pode dizer que tem muito a expiar. Os que gozam de uma felicidade aparente, malgrado os seus vícios e sua inutilidade, pagarão caro numa existência posterior. Foi nesse sentido que Jesus disse: Bem aventurados os aflitos porque serão consolados. (O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. V.) 

29º) A misericórdia de Deus é sem dúvida infinita, mas não é cega. O culpado que ela perdoou não está dispensado de satisfazer a justiça, passando pelas conseqüências de suas faltas. Por misericórdia infinita é necessário entender que Deus não é inexorável, deixando sempre aberta ao culpado a porta de retorno ao bem. 

30º) As penas sendo temporárias e subordinadas ao arrependimento e à reparação, que dependem da livre vontade do homem, acontece o mesmo com os castigos e os remédios que devem ajudar a curar as feridas do mal. Os Espíritos em punição não se encontram na situação dos antigos condenados às galeras, mas como os doentes no hospital. Sofrem a doença que frequentemente decorre de suas próprias faltas e passam por meios dolorosos de cura de que necessitam, mas têm a esperança de ser curados e se curam tanto mais rapidamente, quanto observarem com exatidão as prescrições do médico que solicitamente vela por eles. Se eles prolongam os sofrimentos por sua própria culpa, o médico nada tem com isso. 

31º) As penas que o Espírito sofre na vida espiritual juntam-se às da vida corporal, que são a consequência das imperfeições do homem, de suas paixões, do mau emprego de suas faculdades, e a expiação de suas faltas presentes e passadas. É na vida corporal que o Espírito repara o mal de suas existências anteriores, que põe em prática as resoluções tomadas na vida espiritual. É assim que se explicam as misérias e as dificuldades que, à primeira vista, parecem não ter razão de ser, mas na verdade são justas desde que foram determinadas no passado e servem para o nosso adiantamento.

32º) Deus, pergunta-se, não demonstraria maior amor por suas criaturas se as criasse infalíveis e portanto isentas das vicissitudes decorrentes da imperfeição? Seria necessário, para isso, que ele criasse seres perfeitos, nada tendo a conquistar, nem em conhecimentos e nem em moralidade. Não há dúvida que o podia fazer, mas se não o fez é porque, na sua sabedoria quis que o progresso fosse uma lei geral. Os homens são imperfeitos e, como tal, sujeitos às vicissitudes mais ou menos penosas. Esse é um fato que temos de aceitar, desde que existe. Mas inferir disso que Deus não é bom nem justo seria uma rebeldia. 

Haveria injustiça se ele tivesse criado seres privilegiados, mais favorecidos que os outros, gozando sem esforço da felicidade que os outros só atingem penosamente ou jamais poderiam atingir. A justiça de Deus brilha precisamente na igualdade absoluta que rege a criação de todos os Espíritos. Todos têm o mesmo ponto de partida; não há nenhum que seja, na sua formação, mais bem dotado que os outros; nenhum cuja marcha ascensional seja facilitada por exceção; os que chegam ao alvo passaram, como os outros, pela fieira das provas e da inferioridade. 

Admitindo-se isso, o que haveria de mais justo do que essa liberdade de ação dada a cada um? A via da felicidade está aberta a todos, o objetivo de todos é o mesmo, as condições para atingi-lo são as mesmas para todos e a lei gravada em todas as consciências foi ensinada a todos. Deus fez da felicidade o prêmio do trabalho e não do favoritismo para que cada um tenha o seu mérito. Todos são livres de trabalhar ou de nada fazer para o seu adiantamento. Aquele que trabalha bastante e com rapidez é recompensado mais cedo, mas aquele que se desvia do caminho ou perde o seu tempo, retarda a sua chegada e só pode lamentar de si mesmo. O bem e o mal são facultativos e dependem da vontade de cada um. O homem, por ser livre, não é fatalmente levado, nem para um, nem para o outro. 
33º) Apesar da diversidade de gêneros e graus de sofrimento dos Espíritos imperfeitos, o código penal da vida futura pode se resumir nestes três princípios: 

1º) O sofrimento é inerente à imperfeição. 

2º) Toda imperfeição, e toda a falta que dela decorre, trazem o seu próprio castigo nas suas consequências naturais e inevitáveis, como a doença decorre dos excessos, o tédio da ociosidade, sem que haja necessidade de uma condenação especial para cada falta e cada indivíduo. 

3º) Todo homem podendo corrigir as suas imperfeições pela sua própria vontade, pode poupar-se os males que delas decorrem e assegurar a sua felicidade futura. 
Essa é a lei da justiça divina: a cada um segundo as suas obras, tanto no céu como na Terra.


"O Céu e o Inferno ou a Justiça Divina Segundo o Espiritismo


O Livro dos Espíritos: uma obra ímpar


O Livro dos Espíritos: 
 uma obra ímpar


 Existiu na França, no século XIX, um professor, filósofo, cientista, escritor e poliglota (tradutor, com domínio do alemão, inglês, italiano e espanhol), profundo conhecedor do magnetismo, ciência que estudou por cerca de 35 anos. Sua personalidade era tida como grave e compenetrada, mas também possuía alma boníssima. Era filho de um juiz de direito que, durante a infância e adolescência do futuro professor, o encaminhou para Yverdun, na Suíça, onde ele se submeteu à pedagogia de um dos maiores pedagogos da época, cujos métodos de ensino ainda hoje influenciam escolas do mundo inteiro, Johann Heinrich Pestalozzi. O futuro filósofo aprendeu, com Pestalozzi, desde jovem, a nada aceitar cegamente, a tudo submeter ao crivo da razão. Seu nome civil foi Hippolyte-Léon Denizard Rivail, o qual, dotado de imenso amor à educação, durante muitos anos foi professor de gramática francesa, aritmética, física, química, astronomia e outras disciplinas, além de ter escrito algumas obras de destacado relevo relacionadas à educação, uma delas premiada.

 Como demonstração da mente racionalista de Rivail, e também como constatação do seu imenso bom senso, recolhemos, na obra de Torchi[1], a frase escrita pelo futuro codificador do Espiritismo quando, aos 24 anos, seu espírito fundamentalmente positivista, na juventude, escreveu em obra sobre Educação Pública: “Aquele que houver estudado as ciências rirá, então, da credulidade supersticiosa dos ignorantes. Não mais crerá em espectros e fantasmas. Não mais aceitará fogos-fátuos por Espíritos”[2].

 Pois foi esse mesmo Rivail que, cerca de três décadas mais tarde, entrando na madureza de seu espírito, foi chamado a observar “estranhos fenômenos”. E, após certo tempo de hesitação e dúvidas, resolveu investigar  in loco as chamadas manifestações das mesas girantes, muito em voga na Europa, em especial na França, ali pelos anos cinquenta do século XIX. E viu. E ouviu. E percebeu, naqueles fenômenos, que serviam como entretenimento às almas vulgares e de estudo e reflexão às almas elevadas, que neles poderia estar contida a maior das revelações de uma nova ciência. Adotou, então, o pseudônimo de Allan Kardec.

 Assim viria a lume a obra intitulada O Livro dos Espíritos, inicialmente com 501 questões e já na segunda edição com 1019 perguntas, cujas respostas foram obtidas com a ajuda de médiuns, em especial mulheres, algumas delas ainda adolescentes. As informações obtidas por Kardec e sua equipe eram surpreendentes. Anunciavam a proximidade do surgimento breve de uma nova Era para a Humanidade e deram origem ao desdobramento dessa obra em quatro outras, que completaram seu trabalho gigantesco de codificação da Doutrina Espírita: O Livro dos Médiuns, O Evangelho segundo o Espiritismo, O Céu e o Inferno e  A Gênese. Estava assim completo o denominado Pentateuco kardequiano, embora, em sua modéstia, este jamais tenha se atribuído a autoria do extraordinário conteúdo dessa obra. Considerava-se um mero compilador dos ensinos dos Espíritos. 

 Mas Allan Kardec viria a ser reconhecido posteriormente como o Codificador da Doutrina Espírita, pois seu trabalho foi muito além de simplesmente organizar e dispor as questões que deram origem a todo o edifício do Espiritismo. Comparava as respostas, rejeitava o que não estava de acordo com o “consenso universal”, por orientação das entidades superiores que o inspiravam e sob a direção suprema do Espírito de Verdade. Refletia sobre as respostas, analisava-as, elaborava comentários de grande sabedoria e deduzia as consequências morais e a renovação para a Humanidade advindas do conhecimento e prática dessa Revelação.

 O Livro dos Espíritos, base de todas as demais obras da Codificação, foi desmembrado por Allan Kardec, sempre sob a supervisão e orientação do Espírito de Verdade, em quatro livros: o primeiro, com quatro capítulos, trata sobre “As Causas Primeiras”; o segundo, com 11 capítulos, aborda o “Mundo Espiritual ou dos Espíritos”; o terceiro, em doze capítulos, expõe-nos “As Leis Morais”; e o quarto, as “Esperanças e Consolações” em dois capítulos.

 Na introdução de O Livro dos Espíritos, somos esclarecidos sobre a ciência espírita, que se baseia nas relações do mundo material com o dos Espíritos, os seres inteligentes do mundo espiritual. Com base na moral de Jesus, a obra aborda os seguintes capítulos: Existência de Deus; Imortalidade da Alma; Reencarnação; Pluralidade dos Mundos Habitados e Comunicabilidade dos Espíritos.

 Prolegômenos é o nome do capítulo seguinte. Nele, lemos o anúncio dos Espíritos de que “são chegados os tempos marcados pela Providência para uma manifestação universal”. Os Espíritos superiores são os ministros de Deus e os agentes de sua vontade. Sua missão é instruir e esclarecer os homens, abrindo-se “uma nova era para a regeneração da Humanidade”. Com humildade, Kardec sempre se exime da autoria da obra, a qual atribui aos Espíritos superiores que lhe transmitem seus ensinamentos elevados.





 [1] TORCHI, Christiano.  Espiritismo passo a passo com Kardec. 2. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2008, p. 61.


 [2]   WANTUIL, Zeus; THIESEN, Francisco.  Allan Kardec.   Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2004, v. I, parte segunda, cap. I, item 4. Apud. TORCHI, op. cit. na nota n. 1 acima.


 [3] KARDEC, Allan.   Obras póstumas. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2009, p. 369.


Tratamento Médico e Tratamento Espiritual





Tratamento Médico e Tratamento Espiritual






Os espíritas esclarecidos reconhecem o valor do tratamento médico, assim como sabem que os Espíritos superiores dispõem de recursos muito mais refinados para o tratamento das doenças do ser humano. Por isso mesmo, não cultivam qualquer preconceito contra os tratamentos médicos conduzidos com critério, muito menos contra tratamento espirituais sérios. Sabem que um tipo de tratamento complementa o outro, não havendo, portanto, incompatibilidade entre eles.


Muitos espíritas pouco esclarecidos doutrinariamente e pessoas outras que recorrem aos tratamentos espirituais e outros tratamentos alternativos, com frequência, agem de forma diferente. Imaginam haver incompatibilidade entre os tratamentos e interrompem o tratamento médico. Em muitos casos, a interrupção é recomendada por Espíritos ou pelos próprios médiuns, que garantem a eficácia do tratamento espiritual ou alternativo.


Em recente edição, a revista Veja publicou reportagem sobre uma pesquisa feita pelo médico oncologista Riad Younes no Brasil, na qual ele estuda os resultados obtidos em tratamento de câncer em pacientes que interromperam o tratamento convencional para seguir exclusivamente os tratamentos alternativos feitos com babosa, ervas, cogumelos, vitaminas, cartilagem de tubarão, cirurgias espirituais (grifo meu). É importante ressaltar que a amostra pesquisada é significativa, porquanto foram estudados 3.420 pacientes. O pesquisador chegou à seguinte conclusão: "Nenhum desses métodos reduziu o tamanho do tumor." Apesar disso, 10% dos pacientes disseram que obtiveram melhora.







Como explicar esses resultados? O tratamento espiritual não funciona? Não é possível obter-se cura por meio das cirurgias espirituais?


A questão não é simples. Em primeiro lugar, é preciso compreender que o câncer e outras doenças de maior gravidade são expiatórios, até mesmo os casos em que ocorre cura. É o próprio Espírito que escolhe a sua expiação antes de reencarnar, com o objetivo de resgatar débitos do passado. Como Espírito, ele compreende a necessidade de pagar os seus débitos. Por isso não basta o desejo de curar-se para alterar o programa reencarnatório cuidadosamente planejado.


Outro aspecto importante a ser considerado é o que entendem os Espíritos que alimentam a esperança de cura. Na maioria das vezes, eles se referem à cura do espírito, e não do corpo. Quando o Espírito cumpre uma expiação até o fim fica livre de graves erros de outras existências, que eram causa de sofrimento moral ou desequilíbrios. Esse é o verdadeiro sentido da cura. Por fim, não podemos deixar de levar em consideração o alívio que a prece e os demais recursos espirituais proporcionam a todos os que recorrem à Providência Divina, dando-lhes forças para suportar suas expiações e provas.


Os pacientes que seguem apenas os tratamentos médicos também são socorridos pelos Espíritos, sobretudo se tiverem méritos. Os pacientes que só melhoram quando procuram os recursos espirituais em Centros ou outras instituições espíritas são os que necessitam muito mais do despertar para as questões espirituais. 







Conduta social e riscos morais


O prazer, em todas as áreas da vida, estimula, satisfaz e, nas áreas mais frágeis da personalidade, abre espaços a excessos que causam dependências e tolerâncias, como uma droga qualquer.
Quando o ser humano entende a sua condição de Espírito que deve comandar a matéria, ele consegue dominar os impulsos que se apresentem e que poderiam, pelo abuso, tornarem-se nocivos.
Mais ainda, a consciência lúcida da pessoa é capaz de escolher, graças ao grau específico de maturidade espiritual, o melhor caminho para viver sua vida de acordo com seus projetos.
No entanto, no mundo acelerado em que todos estão se permitindo viver, as contingências emocionais têm sido objeto de exploração intensa, graças ao interesse econômico de manter as almas atreladas aos vícios que, uma vez implantados no modo de ser, favorecem aqueles que os exploram e estimulam em busca dos lucros financeiros que tanto ambicionam.
Por isso é que será sempre um bom negócio facilitar e tirar partido da viciação no consumismo, no uso de drogas tidas como socialmente aceitáveis, das outras drogas, do jogo, da prostituição, da gula. Em face desse comportamento afrouxado, as pessoas sem vontade própria continuarão sempre a se manter dependentes daqueles que as exploram, fornecendo-lhes, em troca, o dinheiro e o respectivo poder que tanto apreciam.
Dessa forma, no aspecto da sexualidade, os mesmos mecanismos da viciação e da tolerância são encontráveis, a fazerem com que a criatura de vontade mais frágil nessa área se permita procurar a satisfação constante e desmedida dessa inclinação, ao mesmo tempo em que a repetição do ato vai roubando ao seu agente, cada vez que o pratica, parte da carga emocional, parecendo que a satisfação antiga já não é a mesma com a mesma ação.
Isso leva, então, pessoas que começam a se tornar dependentes psicológicas da satisfação sexual a buscarem inovações em suas práticas, apimentando as relações para retornarem ao antigo potencial de satisfação. Por um tempo, se sentem complementados pelas novas aventuras, mas, novamente, o mecanismo da tolerância se apresenta, tornando rotineira e sem graça aquela novidade, a pedir uma nova carga de transformações, na tentativa de manter o mesmo nível do prazer.
E nessa jornada espiral descendente, as criaturas permitem-se experimentar outras e outras formas de relação, até que cheguem àquelas consideradas como tabus na sociedade preconceituosa em que vivemos.
Passando a linha dessa “social normalidade”, a pessoa acrescenta aos processos da satisfação sexual a ideia de ruptura com os paradigmas aceitáveis do grupo, empurrando-se para a área da ilegalidade moral, com os complexos de culpa daí decorrentes, explorados pelos Espíritos obsessores que os acompanham nessa queda e que, daí, podem melhor dominar os seus pupilos com as intuições do tipo:
Agora que você chegou até aqui, não dá mais para voltar a ser a pessoa certinha que você era. Você chegou na lama. Agora não pense em sair porque ninguém mais vai acreditar em você. Você nunca prestou mesmo… agora é tarde para sair do lodo. Aproveite e relaxe…
Essas intuições negativas, manipuladas no íntimo da consciência do indivíduo pelas entidades inferiores e inteligentes, colocam a pessoa numa fase de sofrimentos morais profundos, confrontando os afetos e os conceitos morais recebidos da família, com as condutas devassas e extremamente contrárias a tais conceitos que se permitiu viver. Daí, alguns resolvem romper os laços familiares com o afastamento dos seres queridos, alegando necessidade de maior liberdade para viver uma vida sem a observação mais direta ou, então, optam por uma vida dupla, buscando manter duas ou mais máscaras para os diversos momentos de suas experiências pessoais.
Livro Despedindo-se da Terra, cap. 18, Espírito Lúcius – psicografia de André Luiz Ruiz.

NO APRIMORAMENTO

NO APRIMORAMENTO

No aperfeiçoamento do corpo espiritual, além do primitivismo de certas almas que jazem, longo tempo, entorpecidas após a morte física, observamos, ainda, o quadro das mentes evolvidas intelectualmente, mas submersas nas densas vibrações decorrentes de compromissos escuros.

Não permanecem no regime da inércia, em sono larval; entretanto, agitam-se nos desvarios da loucura.

Criam imagens que vivem e se movimentam na intimidade delas próprias, por tempo indeterminado, cuja duração varia com a força do impulso de suas paixões.

Carregam consigo os dramas intensos de que se fizeram autoras.

Encarnada na Terra, a inteligência vive entre as provocações da esfera carnal e as sugestões silenciosas da mente. Quanto mais intelectualizada a criatura, mais profundamente respira no plano das ideias, influenciando e sendo influenciada.

Geralmente, porém, o homem desequilibra os próprios sentimentos, inclinando-se, em maior ou menor percentagem, para o afastamento das leis com as quais se deve nortear. Atravessa os caminhos humanos, ganhando pouco e quase sempre perdendo muito, dentro de si mesmo, obscurecendo-se nas pesadas sombras dos pensamentos inquietantes que produz para o consumo de suas necessidades mentais.

Assim é que a desencarnação não lhes modifica o campo íntimo.

Encasulada no círculo vibratório das criações que lhe dizem respeito, a alma sofre naturais inibições, ante a paisagem da vida gloriosa. Não possui ainda órgão de percepção para sintonizar-se com os espetáculos deslumbrantes da imensidade, encarcerada, qual se encontra, entre as paredes estranhas das concepções obscuras e estreitas em que se agita.

Como a lâmpada vive no seio das próprias irradiações, imitindo luz que é também matéria sutil, a alma permanece no seio das criações que lhe são peculiares, prendendo-se à paisagem em que prevaleçam as forças e desejos que lhe são afins, porque o pensamento é também substância rarefeita, matéria dentro de expressões inabordáveis até agora pelas investigações terrestres.

Podendo alimentar-se, por tempo indefinível, das emanações dos próprios desejos, entidades existem que estacionam, durante muitos anos, dentro dos quadros emocionais em que se comprazem, atrasando a marcha evolutiva, até que reencarnam na recapitulação das experiências em que faliram, retomando o serviço de purificação interior para a sublimação de si mesmas.

Desse modo, somos defrontados por dolorosos fenômenos congeniais.

Suicidas recomeçam a luta física, no círculo de moléstias ingratas, e criminosos reaparecem no berço, com deploráveis mutilações e defeitos; alcoólatras regressam à existência, em companhia de pais que se sintonizam com eles e grandes delinquentes reencetam a viagem do aprimoramento moral, na esfera de provas temíveis, quais sejam as de enfermidades indefiníveis e de aflições dificilmente remediáveis.

No extenso e abençoado viveiro de almas que é o mundo, pouco a pouco, de século a século e de milênio a milênio, usando variados corpos e diversas posições no campo das formas, nosso espírito constrói lentamente, para o próprio uso, o veículo acrisolado e divino, com que o Senhor nos reserva em plena imortalidade vitoriosa.
Pelo Espírito Emmanuel, Do Livro: Roteiro, Médium: Francisco Cândido Xavier.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

AUTO-ACOLHIMENTO

AUTO-ACOLHIMENTO
:: Bel Cesar :: 


Não importa a razão: quando nos sentimos desajustados em nós mesmos, tornamo-nos reféns de nossa própria autocrítica. Muitas vezes, quando passamos alguma vergonha (seja por algum motivo relevante ou não) ficamos presos a um estado interno que nos coloca cada vez mais para baixo. O mesmo pode ocorrer quando somos agredidos ou simplesmente fomos mal atendidos. 
Quando o desconforto próprio ou alheio entra dentro de nós, só nos resta cuidar deste mal-estar. Se os outros (ou nós mesmos) nos tratam mal, ainda assim, podemos nos tratar bem! A alavanca para mudar este sistema é saber nos autoacolher.
Autoacolhimento é estar disponível para nós mesmos: abrir espaço interior para nos recebermos. Mas, se nossa linguagem interna soar hostil, não iremos querer nos autoescutar. Naturalmente, se nos sentirmos desconfortáveis, vamos querer cair fora, mas para onde ir quando o mal-estar está instalado em nosso íntimo?
A primeira coisa a fazer é parar de nos colocar para baixo. Dizer a nós mesmos repetidas vezes: "Ok, isso de fato ocorreu, agora cabe a mim diluir esse impacto, escolho me autoacolher". Quando agimos assim, acionamos nossa base interna de segurança, pois, passamos a estar disponíveis para nos receber ao invés de nos criticarmos ainda mais.
Autoacolher-se não quer dizer ser condescendente com os próprios erros. Mas, sim, tratar a nós mesmos com gentileza à medida em que admitimos nossas falhas. 
Autoacolher-se não quer dizer justificar nossa fraqueza como vítimas de consequências injustas. Mas, sim, dar a nós mesmos a chance de nos levantarmos assim que caímos. 
Quando pararmos de nos rejeitar, conseguiremos nos aproximar de nós mesmos a ponto de escutar nossas reais necessidades internas. A questão é que muitas vezes estamos tão sobrecarregados pela sensação de não nos sentirmos atendidos, que sequer conseguimos escutar nossos pedidos internos. Mas, à medida em que permanecemos ao nosso lado, mesmo que inconformados com o ocorrido, passamos a nos escutar.
Validar nossas necessidades é outra forma de nos autoacolher. Depois que reconhecemos o direito de nos darmos algo, agora precisamos agir de modo coerente para recebê-lo. Se quisermos ser respeitados em nossos limites, precisaremos inicialmente ser sinceros para reconhecê-los. 
Por exemplo, muitas vezes dizemos, sim, quando na realidade queríamos dizer não, simplesmente porque não levamos a sério nossos limites e necessidades. Isso ocorre porque não aprendemos a escutá-los. O medo de lidar com a decepção alheia é um reflexo da incapacidade de nos auto-acolhermos diante de nossos próprios limites!
Portanto, podemos sempre ampliar nossas possibilidades internas na medida em que nos mantivermos em contato com nossa base interior. Esta não é uma atitude egocentrada, na qual o outro não é levado em consideração. Mas, simplesmente, parte do processo diário do desenvolvimento interior. Sabermos nos respeitar é uma forma saudável de liberarmos o outro de nossas expectativas exageradas. 
Quando nos autoacolhemos, podemos ser quem somos. Livres da pressão interna de corresponder a expectativas que ainda não estamos prontos para cumprir, podemos relaxar e gradualmente gerar novas forças para seguir adiante. Uma vez confortáveis com nossa base interior, podemos nos preparar para receber melhor o outro, seja em sua alegria ou desconforto...

Semeadores de esperança

Semeadores  de  esperança

       Possivelmente não terás pensado ainda no verbo formoso e grave a que todos somos chamados: criar para o progresso.
       O Criador, ao dotar-nos de razão, a nós, criaturas, conferiu-nos o poder de imaginar, promover, originar, produzir.
       Referimo-nos, frequentemente, à lei de causa e efeito. Sabemos que ela funciona em termos de exatidão. Utilizamo-la, quase sempre, tão-só para justificar sofrimentos, esquecendo-lhe a possibilidade de estabelecer alegrias.
       Causamos isso ou aquilo, geramos acontecimentos determinados. Experimentemos essa força que nos é peculiar, na formação de circunstâncias favoráveis aos homens.
       Antes do comboio a vapor, a eletricidade já existia. Os transportes arrastavam-se pela tração, mas foi preciso que alguém desejasse criar na Terra a locomotiva, que se converteu a pouco e pouco no trem elétrico, a fim de que a Civilização aprimorasse os sistemas de condução que prosseguem para mais altas expressões evolutivas.
       O firmamento era vasculhado pelos olhos humanos há milênios, mas foi necessário que um astrônomo levantasse lentes, para que os povos recolhessem as preciosas informações do Universo, que já havia antes deles.
       O princípio é idêntico para a vida moral.
       Precisamos hoje e em toda parte dos criadores de harmonia doméstica e social, dos desenhistas de pensamentos certos, dos escultores de boas obras.
       O tempo nos ensinará a entender a necessidade básica de se criarem condições para o entendimento mútuo, como já se estabeleceram normas para o trânsito fácil do automóvel.
       Inventa em tua existência soluções de conforto, suscita motivos de paz, traça diretrizes de melhoria, faze o que ainda não foi aproveitado na realização da riqueza íntima de todos.
       Provavelmente, estamos na atualidade em estágio obscuro de lições, sob a situação imperiosa de ações passadas. Mas não nos será correto esquecer que somos Inteligências com raciocínio claro e que, se antigamente nos foi possível colocar em ação as causas que neste momento e neste local nos infelicitam, retemos conosco a sublime faculdade de idear, planejar e construir.
       Ajamos na construtividade de Jesus, sejamos semeadores de esperança.

André  Luiz  (Waldo  Vieira)
(De “Estude e Viva”, de Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira, pelos Espíritos Emmanuel e André Luiz)

Obreiros a tentos,, livro fonte viva xico xavier

Obreiros a tentos
“Aquele, porém, que atenta bem para a lei perfeita da
liberdade e nisso persevera, não sendo ouvinte esquecido, mas
fazedor da obra, esse tal será bemaventurado
em seus feitos."
(Tiago, 1 :25)
O discípulo da Boa Nova, que realmente comunga com o Mestre, antes de
tudo compreende as obrigações que lhe estão afetas e rende sincero culto à lei de
liberdade, ciente de que ele mesmo recolherá nas leiras do mundo o que houver
semeado. Sabe que o juiz dará conta do tribunal, que o administrador responderá
pela mordomia e que o servo se fará responsabilizado pelo trabalho que lhe foi
conferido. E, respeitando cada tarefeiro do progresso e da ordem, da luz e do bem,
no lugar que lhe é próprio, persevera no aproveitamento das possibilidades que
recebeu da Providência Divina, atencioso para com as lições da verdade e aplicado
às boas obras de que se sente encarregado pelos Poderes Superiores da Terra.
Caracterizandose
por semelhante atitude, o colaborador do Cristo, seja
estadista ou varredor, está integrado com o dever que lhe cabe, na posição de agir e
servir, tão naturalmente quanto comunga com o oxigênio no ato de respirar.
Se dirige, não espera que outros lhe recordem os empreendimentos que lhe
competem. Se obedece, não reclama instruções reiteradas, quanto às atribuições que
lhe são deferidas na disposição regimental dos trabalhos de qualquer natureza. Não
exige que o governo do seu distrito lhe mande adubar a horta, nem aguarda decretos
para instruirse
ou melhorarse.
Fortalecendo a sua própria liberdade de aprender, aprimorarse
e ajudar a
todos, através da inteira consagração aos nobres deveres que o mundo lhe confere,
fazse
bemaventurado
em todas as suas ações, que passam a produzir vantagens
substanciais na prosperidade e elevação da vida comum.
Semelhante seguidor do Evangelho, de aprendiz do Mestre passa à
categoria dos obreiros atentos, penetrando em glorioso silêncio nas reservas
sublimes do Celeste Apostolado.

ESTÍMULO FRATERNAL

ESTÍMULO FRATERNAL
“O meu Deus, segundo as suas riquezas, suprirá todas as vossas necessidades em glória, por Cristo Jesus.”- Paulo. (Filipenses, 4:19.)
          Não te julgues sozinho na luta purificadora, porque o Senhor suprirá todas as nossas necessidades.
          Ergue teus olhos para o Alto e, de quando em quando, contempla a retaguarda.
          Se te encontras em posição de servir, ajuda e segue.
          Recorda o irmão que se demora sem recursos, no leito da indigência.
          Pensa no companheiro que ouve o soluço dos filhinhos, sem possibilidades de enxugar-lhes o pranto.
          Detém-te para ver o enfermo que as circunstâncias enxotaram do lar.
          Para um momento, endereçando um olhar de simpatia à criancinha sem teto.
          Medita na angústia dos desequilibrados mentais, confundidos no eclipse da razão.
          Reflete nos aleijados que se algemam na imobilidade dolorosa.
          Pensa nos corações maternos, torturados pela escassez de pão e harmonia no santuário doméstico.
          Interrompe, de vez em quando, o passo apressado, a fim de auxiliares o cego que tateia nas sombras.
          É possível, então, que a tua própria dor desapareça aos teus olhos.
          Se tens braços para ajudar e cabeça habilitada a refletir no bem dos semelhantes, és realmente superior a um rei que possuísse um mundo de moedas preciosas, sem coragem de amparar a ninguém.
          Quando conseguires superar as tuas aflições para criares a alegria dos outros, a felicidade alheia te buscará, onde estiveres, a fim de improvisar a tua ventura.
          Que a enfermidade e a tristeza nunca te impeçam a jornada.
          É preferível que a  morte nos surpreenda em serviço, a esperarmos por ela numa poltrona de luxo.
          Acende, meu irmão, nova chama de estímulo, no centro da tua alma, e segue além...Sê o anjo da fraternidade para os que te seguem dominados de aflição, ignorância e padecimento.
          Quando plantares a alegria de viver nos corações que te cercam, em breve as flores e os frutos de tua sementeira te enriquecerão o caminho.

(Do livro “Fonte Viva”, de Francisco Cândido Xavier, pelo Espírito Emmanuel).

sábado, 1 de fevereiro de 2014

SENHOR, AJUDA-ME A PERDOAR


SENHOR, AJUDA-ME A PERDOAR


Senhor, eu gostaria tanto de poder perdoar. Disponho-me a isso. Oro e tenho a impressão de que lavei meu coração de toda mágoa.
Contudo, basta que eu reveja quem me agrediu, caluniou, traiu e todo o sentimento retorna.
Isso está me fazendo muito mal, Senhor. Sinto um peso dentro de mim, um mal-estar e tenho a impressão de que perdi um tanto da capacidade de amar.
Em função do que padeci, tornei-me desconfiado. Quando um amigo me abraça, não me entrego em totalidade. Fico pensando se ele está sendo sincero.
Se não estará, como outros, demonstrando uma afeição que não lhe habita a alma, somente por conveniência. Pior ainda, fico cogitando quando esse amigo me oferecerá o fruto amargo do abandono.
Isso é muito ruim, Senhor, eu sei. Contudo, tornei-me assim, depois de tantas ingratidões recebidas, em tantos afastamentos constatados, em tantas evasões de pessoas a quem entreguei o meu coração.
Recorro às páginas do Evangelho e as leio, entre a emoção e o desassossego. Pesquiso as vidas dos grandes seguidores da Tua mensagem e me indago:
Por que eles conseguiram perdoar? O que me falta para isso?
Na tela da memória, evoco a imagem do primeiro mártir do Cristianismo, Estêvão, apedrejado por amor à verdade que propagava.
Ainda agonizante, ao lado da irmã, que descobre noiva do seu verdugo, tem palavras de perdão. Não são palavras de quem, por estar morrendo, resolve doar o perdão.
São palavras de quem se mostra agradecido por reencontrar a irmã querida, depois de tantos anos de separação que lhes fora imposta.
São palavras de quem está feliz e poderá morrer tranquilo, não somente por ter sido fiel a Jesus até o fim, mas por saber que sua irmã estará bem amparada por aquele mesmo que a ele tirou a vida.
Cristo os abençoe... Não tenho no teu noivo um inimigo, tenho um irmão...
Saulo deve ser bom e generoso. Defendeu Moisés até ao fim... Quando conhecer a Jesus, servi-lo-á com o mesmo fervor...
Sê para ele a companheira amorosa e fiel...
Perdão incondicional. Ele poderia pensar em que poderia gozar da felicidade de tornar a conviver com a irmã, depois de tantos anos.
Voltar a estarem juntos, como dantes da tragédia que os separara. Mas, não.
Suas palavras não são de reprovação a quem o condenara ao apedrejamento. Nele somente há perdão.
Por tudo isso, Senhor, eu Te peço: Ajuda-me a perdoar. Ensina-me a perdoar. Promove em mim a mudança para melhor.
Não permitas que eu me perca pelas ruelas sombrias da mágoa, da tristeza e do desencanto.
Eu desejo voltar a acreditar nas pessoas, a crer na amizade sincera, na doação sem jaça.
Recordando o Teu exemplo extraordinário na cruz, preocupando-Te com aqueles que Te haviam infligido tanto sofrimento e morte, eu Te peço: Ajuda-me.
Tenho certeza de que, quando o perdão puder ser a tônica dos meus atos, eu voltarei a sorrir, a ter fé, a viver intensamente.
Ajuda-me, pois, Senhor Jesus, a perdoar. Porque, não somente desejo ser feliz, mas igualmente almejo ser, para os que comigo convivem, motivo de contentamento e de alegria.